Cobrança terceirizada sustenta a oferta de crédito, aponta estudo nos EUA
Pesquisa publicada no Journal of Financial Economics mostra que, onde as leis dificultam a vida das agências de cobrança, há menos cobradores, menor recuperação da dívida e menos crédito novo. Hospitais são os maiores clientes do setor.

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O que acontece com o crédito quando fica mais difícil cobrar por meio de agências especializadas? Um estudo publicado no Journal of Financial Economics em outubro de 2020 respondeu com 15 anos de dados dos Estados Unidos: menos agências, menor recuperação das dívidas e menos crédito novo. É a melhor evidência que conhecemos sobre o papel da cobrança terceirizada no sistema de crédito, e ela diz algo sobre o que a terceirização faz (e o que não faz) por uma empresa que vende a prazo.
Quem fez e como
O autor é Viktar Fedaseyeu, professor da China Europe International Business School (CEIBS) e, durante a pesquisa, pesquisador visitante do Consumer Finance Institute do Federal Reserve de Filadélfia. O artigo, "Debt collection agencies and the supply of consumer credit", saiu no volume 138 do Journal of Financial Economics (páginas 193 a 221) e circulou antes como Working Paper 20-06 do Fed de Filadélfia, em fevereiro de 2020, a versão de acesso aberto que lemos na íntegra.
A ideia é simples. Nos Estados Unidos, cada estado tem as próprias regras para agências de cobrança terceirizadas: exigência de licença e caução, lista de práticas proibidas, penalidades e, em alguns casos, tratamento como crime. O autor contou essas restrições e montou um índice de rigor por estado e por ano, que vai de 0 (Dakota do Sul, sem restrição) a 8 (Idaho, o mais rígido), com média de 3,46. Como os estados mudaram as leis em anos diferentes entre 2000 e 2014, dá para comparar o antes e o depois de cada mudança com o restante do país.
O que o estudo encontrou
Cada ponto a mais no índice de rigor produz quatro efeitos:
- Menos agências. O número de cobradores terceirizados por milhão de habitantes cai cerca de 15% da média. Parte da cobrança volta para dentro dos credores, e o autor encontra sinais dessa substituição. O detalhe importante: o credor sempre pode cobrar sozinho; se contrata uma agência, é porque espera recuperar mais, líquido da comissão. Ser forçado a trazer a cobrança de volta significa aceitar um processo menos eficaz.
- Menor recuperação. Nas cooperativas de crédito, que raramente têm estrutura própria e dependem de agências, a taxa de recuperação dos cartões baixados a prejuízo cai cerca de 7% da média.
- Menos crédito novo. Numa amostra representativa dos consumidores com histórico de crédito, a abertura de novas linhas rotativas cai cerca de 2% da média. O efeito é modesto, e o autor diz isso com todas as letras.
- Menos processos, mas não menos reclamações. As leis mais rígidas reduzem os processos de consumidores contra agências (cerca de um desvio-padrão), mas o total de reclamações contra cobradores não cai. Daí a conclusão: as leis restringem o crédito, e o efeito sobre o lado humano da cobrança (o desgaste que ela impõe ao devedor) é ambíguo.
O contexto ajuda a dimensionar. Entre 2001 e 2014, em média 9,95% da dívida de cartão nos Estados Unidos estava com mais de 90 dias de atraso, contra 3,74% do crédito imobiliário, e a parcela de consumidores com pelo menos uma conta em cobrança terceirizada chegou a 13,48% no fim de 2014. As agências, em sua maioria, trabalham por comissão sobre o que recuperam.
Hospitais são os maiores clientes das agências
Um dado do estudo surpreende quem acha que cobrança terceirizada é coisa de banco. Segundo a pesquisa de mercados da associação do setor (ACA International) citada pelo autor, em 2013 os três maiores mercados das agências, por volume, eram hospitais e serviços de saúde (47,2%), serviços públicos como luz e água (13,7%) e bancos e financeiras (11,1%). O próprio autor observa que os resultados devem interessar sobretudo a credores que dependem de agências, como hospitais e concessionárias.
A razão é a mesma que vale para uma clínica, uma escola ou uma loja no Brasil: quem não é banco não tem equipe, sistema nem rotina de cobrança, e cobrar é uma atividade que exige os três. A terceirização não é sinal de fraqueza; é a decisão de usar um processo mais eficaz do que o improviso interno.
O que o estudo não diz
O trabalho mede cartão de crédito e cooperativas de crédito nos Estados Unidos, com leis estaduais que não existem no Brasil. Não diz que leis de cobrança são ruins: o autor destaca que o acesso ao crédito tem dois lados, e que parte dos consumidores toma crédito demais quando ele é fácil. Também não mede o que a cobrança faz com a relação entre a empresa e o cliente, que é o ponto central para quem vive de mensalidade recorrente. A leitura que fazemos é a de que o setor de cobrança é uma peça do sistema de crédito, e que a diferença entre uma peça útil e um problema está no método. Comparamos as regras de conduta dos dois países na análise sobre a Regulation F do CFPB.
Perguntas frequentes
Terceirizar a cobrança vale a pena para uma pequena empresa?
O estudo mostra que os credores só contratam uma agência quando esperam recuperar mais, líquido da comissão, do que cobrando sozinhos; quando as agências somem, a recuperação cai. Para quem não tem equipe nem rotina de cobrança, a terceirização costuma recuperar mais, desde que o parceiro cobre dentro da lei e com respeito.
Por que o credor contrata uma agência em vez de cobrar sozinho?
Porque cobrar exige processo, sistema e gente dedicada. Nos Estados Unidos, os maiores clientes das agências são hospitais e serviços de saúde (47,2% do volume em 2013), seguidos por concessionárias de serviços públicos (13,7%) e bancos (11,1%), segundo dado citado no estudo.
Fontes
- Fedaseyeu, Viktar. Debt collection agencies and the supply of consumer credit. Journal of Financial Economics, vol. 138, n. 1, p. 193 a 221 (resumo no IDEAS/RePEc), 2020 . DOI: 10.1016/j.jfineco.2020.05.002
- Fedaseyeu, Viktar. Debt Collection Agencies and the Supply of Consumer Credit (Working Paper 20-06, versão de acesso aberto). Federal Reserve Bank of Philadelphia Working Papers, 2020 . DOI: 10.21799/frbp.wp.2020.06
Guia completo: para entender o tema do começo ao fim, leia Cobrança humanizada: o que é e como fazer.