Dívida das famílias nos EUA soma US$ 18,8 trilhões, mostra o NY Fed
O relatório trimestral do Federal Reserve de Nova York, divulgado em 11 de agosto de 2026, mostra queda de US$ 13 bilhões no 2º trimestre, 4,7% do saldo em algum atraso e cartão de crédito em US$ 1,26 trilhão. O que o dado ensina para quem cobra no Brasil.

Neste texto
As famílias americanas deviam US$ 18,77 trilhões no fim de junho de 2026. O número está no Relatório Trimestral sobre Dívida e Crédito das Famílias, que o Federal Reserve de Nova York (NY Fed) divulgou em 11 de agosto de 2026. É uma queda de US$ 13 bilhões em relação ao primeiro trimestre (0,1%), mas o saldo segue US$ 4,6 trilhões acima do que era no fim de 2019, antes da pandemia.
Para dar uma ideia de escala: pela cotação PTAX de venda de 29 de setembro de 2026 (R$ 5,22 por dólar), são cerca de R$ 98 trilhões, numa conversão aproximada que serve só como referência de tamanho.
Este texto resume o que o relatório mostra, explica uma discussão técnica importante sobre como medir atraso e traz a leitura para quem administra recebíveis no Brasil.
O que o relatório mede
O NY Fed usa uma amostra anônima e representativa de relatórios de crédito da Equifax (o Consumer Credit Panel) e divide a dívida por produto. Os saldos do segundo trimestre de 2026, segundo o comunicado:
| Tipo de dívida | Saldo em junho de 2026 | Variação no trimestre |
|---|---|---|
| Hipoteca | US$ 13,12 trilhões | queda de US$ 74 bilhões |
| Linha de crédito com garantia do imóvel (HELOC) | US$ 459 bilhões | alta de US$ 13 bilhões |
| Cartão de crédito | US$ 1,26 trilhão | alta de US$ 21 bilhões |
| Financiamento de veículo | US$ 1,71 trilhão | alta de US$ 28 bilhões |
| Empréstimo estudantil | US$ 1,65 trilhão | queda de US$ 7 bilhões |
| Outros (cartões de loja, crédito pessoal) | US$ 568 bilhões | alta de US$ 6 bilhões |
A queda na hipoteca, que puxou o total para baixo, tem uma explicação técnica: o próprio relatório diz que ela se deve, em grande parte, a uma falha temporária de registro na transferência de contratos entre empresas que administram os financiamentos. Sem esse efeito, o saldo de hipotecas teria ficado estável. Já as dívidas fora do imóvel cresceram US$ 48 bilhões (0,9%) no trimestre.
Quanto está em atraso
No fim de junho, 4,7% de todo o saldo estava em algum estágio de atraso, 0,1 ponto percentual a menos que no trimestre anterior. O relatório também acompanha o fluxo para o atraso grave: quanto do saldo passou a ter 90 dias ou mais de atraso ao longo dos 12 meses anteriores. É esse indicador que mostra se a situação está piorando ou não.
Em um ano, o fluxo total para atraso grave caiu de 2,91% para 2,57%. No cartão, ficou praticamente parado (de 6,93% para 6,97%); no veículo, subiu um pouco (de 2,93% para 3,00%); na hipoteca, foi de 1,29% para 1,52%. O empréstimo estudantil é o caso à parte: o fluxo caiu de 12,88% para 7,83%, mas o estoque em atraso grave subiu para 10,6% do saldo (era 10,3% no trimestre anterior). O próprio NY Fed explica que o dado estudantil ainda está distorcido pela volta do registro de dívidas em default, que ficou suspenso durante a pandemia.
Outros números do relatório: cerca de 137 mil consumidores tiveram uma anotação de falência incluída no relatório de crédito no trimestre; 4,9% dos consumidores têm alguma conta em cobrança por terceiros registrada; e cerca de 55 mil pessoas tiveram uma nova execução de hipoteca anotada.
As taxas de atraso na maioria dos produtos se mantiveram estáveis nos últimos dois anos. Ainda assim, os novos atrasos em financiamento de veículos e cartão de crédito continuam em níveis elevados, uma tendência que seguiremos acompanhando.
Cartão de crédito: por que dois números contam histórias diferentes
Junto com o relatório, cinco economistas do NY Fed publicaram no blog Liberty Street Economics uma análise que interessa a qualquer gestor de carteira. Eles mostram que a parcela do saldo de cartão com 90 dias ou mais de atraso (o "estoque") subiu de 7,6% no terceiro trimestre de 2022 para 12,8% no primeiro trimestre de 2026. Olhando só esse número, parece que o consumidor americano está em apuros crescentes.
Só que o fluxo de novos atrasos conta outra história: está elevado, mas praticamente estável desde 2024. A diferença vem de uma mudança na forma de registrar. Os bancos baixam a dívida do cartão depois de 120 a 180 dias de atraso, mas o consumidor continua devendo, e os emissores passaram a manter essas dívidas baixadas no relatório de crédito por mais tempo. Em 2024, 80% das dívidas de cartão baixadas ainda apareciam no relatório um ano depois; entre 2004 e 2012, essa proporção era de cerca de 40%. Mais de 23 milhões de americanos carregam saldos de cartão baixados no relatório de crédito.
A conclusão dos autores é que, para saber como o consumidor está pagando hoje, o fluxo é a medida certa. O estoque mistura o atraso novo com dívidas antigas que ninguém mais espera receber.
O que isso tem a ver com o Brasil
O mercado americano é diferente do brasileiro em tamanho, juros e produtos, e nada aqui autoriza uma comparação direta de números. O que vale é o método. Uma escola, uma clínica ou uma loja com crediário costuma olhar a inadimplência como estoque: "tenho R$ 80 mil em aberto". Esse número junta a parcela que venceu na semana passada com o carnê abandonado há dois anos, e por isso diz pouco sobre o que está acontecendo agora.
A pergunta mais útil é a do fluxo: de tudo o que venceu neste mês, quanto ficou sem pagar? E de tudo o que entrou em atraso há 90 dias, quanto ainda está aberto? Essas duas medidas mostram se o problema é de entrada (vendas ou matrículas mal avaliadas) ou de saída (cobrança lenta). É o conceito de idade da carteira, e ele explica por que o tempo pesa tanto: numa operação real de cobrança de uma empresa de educação, recuperamos 4 vezes mais valor nos primeiros 30 dias de atraso do que depois de 6 meses.
Há outro paralelo. Nos Estados Unidos, a cobrança terceirizada é regulada por uma regra que limita contatos e exige transparência, como mostramos na notícia sobre a Regulation F do CFPB. O relatório do NY Fed indica que 4,9% dos consumidores têm conta em cobrança por terceiros. Cobrar cedo e de forma respeitosa é o que evita que o cliente chegue a esse ponto.
Quando sai o próximo relatório
O NY Fed publica o relatório quatro vezes por ano, sempre algumas semanas depois do fim do trimestre. O retrato do terceiro trimestre de 2026 costuma sair em novembro. Voltaremos ao tema quando ele for divulgado.
Perguntas frequentes
O que é o relatório de dívida das famílias do NY Fed?
É um levantamento trimestral do Federal Reserve de Nova York feito a partir de uma amostra anônima e representativa de relatórios de crédito da Equifax. Ele mede o saldo devedor das famílias americanas por tipo de dívida (hipoteca, cartão, veículo, estudantil) e quanto desse saldo está em atraso.
O que é atraso grave nesse relatório?
É a parcela do saldo com 90 dias ou mais de atraso. O relatório também mede o fluxo, isto é, quanto do saldo que estava em dia passou a ter 90 dias ou mais de atraso ao longo dos últimos 12 meses.
Fontes
- Household Debt Balances Decreased Slightly; Credit Card Delinquency Transition Rates Remained Steady. Federal Reserve Bank of New York (comunicado à imprensa), 11 de agosto de 2026
- Quarterly Report on Household Debt and Credit, 2026:Q2. Federal Reserve Bank of New York, Center for Microeconomic Data, agosto de 2026
- Lee, Donghoon; Mangrum, Daniel; Scally, Joelle W.; Sinha, Tejas; van der Klaauw, Wilbert. How Distressed Are Consumers? Reconciling Diverging Credit Card Delinquency Measures. Liberty Street Economics (Federal Reserve Bank of New York), 11 de agosto de 2026
- Cotação do dólar PTAX de 29 de setembro de 2026. Banco Central do Brasil (API Olinda), 29 de setembro de 2026
Guia completo: para entender o tema do começo ao fim, leia Guia completo de inadimplência para pequenas empresas.