Endividamento de risco: o que o Banco Central mostra sobre quem deve
Estudo Especial do Banco Central define quem é o endividado de risco e traça o perfil: 4,6 milhões de pessoas, 5,4% de quem tem crédito, concentradas na renda média e acima dos 55 anos. Um retrato útil para quem vende a prazo.

Inadimplente e endividado não são a mesma coisa. Uma família pode estar com uma parcela atrasada e ter o orçamento sob controle; outra pode estar em dia com tudo e, mesmo assim, caminhando para o colapso financeiro. Para separar os dois casos, o Banco Central criou um indicador próprio, o endividamento de risco, e publicou o retrato de quem se enquadra nele.
O estudo saiu em 2020, como boxe do Relatório de Economia Bancária de 2019, e depois foi republicado como Estudo Especial nº 80. Os dados vão até dezembro de 2019 e vêm do Sistema de Informações de Crédito (SCR), a base em que os bancos registram as operações de cada cliente. Não é um retrato atual, e dizemos isso de saída: é a definição e o perfil de referência, com os números daquele momento.
O que é endividamento de risco
O Banco Central considera endividado de risco quem atende a pelo menos dois de quatro critérios:
- inadimplência: parcelas com mais de 90 dias de atraso;
- comprometimento de renda: mais de 50% da renda mensal destinada ao pagamento de dívidas;
- multimodalidades: usar ao mesmo tempo cheque especial, crédito pessoal sem consignação e rotativo do cartão, as três linhas sem garantia e sem finalidade definida;
- renda disponível abaixo da linha de pobreza: o que sobra depois de pagar as dívidas do mês fica abaixo de R$ 439,03 (valor de dezembro de 2019, equivalente a US$ 5,50 por dia).
O estudo faz questão de distinguir esse conceito do superendividamento, que tem um componente subjetivo (a percepção da pessoa sobre a própria situação) e por isso não é medido ali. O endividamento de risco usa só dados objetivos, e exige dois critérios ao mesmo tempo justamente para não inflar o fenômeno.
Os números
Em dezembro de 2019, havia 85,2 milhões de pessoas com operações de crédito em aberto no SCR. Dessas, 4,6 milhões estavam em endividamento de risco: 5,4% do total. A série, que começa em junho de 2016 com 5,0 milhões, caiu para 3,9 milhões no fim de 2017 e voltou a subir em 2018, chegando a 4,8 milhões em junho de 2019 antes de recuar levemente.
O perfil por idade é o que mais chama a atenção: a proporção de endividados de risco cresce conforme a pessoa envelhece.
Por renda, o risco não está nas pontas. A faixa com maior incidência é a de R$ 5 mil a R$ 10 mil por mês (6,5%), seguida de quem ganha até R$ 1 mil (5,7%) e de quem ganha de R$ 2 mil a R$ 5 mil (5,6%). Acima de R$ 10 mil, cai para 4,7%. Cerca de 80% dos endividados de risco estão nas faixas intermediárias, de R$ 1 mil a R$ 10 mil, o que leva o Banco Central a sugerir que a propensão ao superendividamento pode ser um fenômeno de renda média.
Por região, a incidência é parecida com a média nacional, com exceção do Norte (6,1%), onde ficam três dos cinco estados com maior proporção: Amazonas (7,7%), Amapá (7,5%) e Roraima (6,5%). Rio Grande do Sul (6,7%) e Maranhão (6,4%) completam a lista. Mulheres aparecem um pouco mais (5,6%) do que homens (5,2%), e morar em capital ou fora dela não faz diferença (5,4% nos dois casos).
O sinal que mais importa
A parte mais útil do estudo para quem cobra está no cruzamento dos critérios. Entre os tomadores que tinham as três linhas sem garantia ao mesmo tempo (cheque especial, crédito pessoal e rotativo), a taxa de inadimplentes era de 29,7%. Entre os demais, 11,7%. É a diferença mais forte de toda a análise.
Já o comprometimento de renda acima de 50%, isoladamente, quase não separa quem paga de quem não paga: 13,3% de inadimplentes contra 12,3%. O mesmo vale para a renda disponível abaixo da linha de pobreza (12,9% contra 12,4%). Só na faixa acima de R$ 5 mil esses indicadores passam a prever inadimplência com clareza. A explicação que o Banco Central oferece para o risco maior na renda média e entre os mais velhos é o relacionamento bancário mais profundo: mais produtos disponíveis e limites maiores.
Limites do retrato
Os dados são de dezembro de 2019, antes da pandemia e do ciclo de juros altos que veio depois, e o estudo mede o indivíduo, não a família. Também só enxerga o crédito registrado no SCR, com dívidas a partir de R$ 200: a mensalidade atrasada na escola ou o carnê da loja não aparecem ali. Por isso, o que o estudo oferece não é o tamanho da inadimplência que a sua empresa enfrenta, e sim o mapa de quem tende a entrar em dificuldade estrutural, e de quem, ao contrário, só precisa de uma cobrança bem feita.
Perguntas frequentes
Endividado de risco é o mesmo que superendividado?
Não. O Banco Central separa os dois: o superendividamento tem um componente subjetivo, de percepção da própria situação. O endividamento de risco usa só critérios objetivos do Sistema de Informações de Crédito, como atraso acima de 90 dias e mais de 50% da renda comprometida.
Qual é o sinal mais forte de inadimplência no estudo?
Ter ao mesmo tempo cheque especial, crédito pessoal sem consignação e rotativo do cartão. Entre quem tem as três modalidades, a taxa de inadimplentes era de 29,7%, contra 11,7% entre os demais tomadores, em dezembro de 2019.
Fontes
- Banco Central do Brasil. Indicadores de endividamento de risco e perfil do tomador de crédito (Estudo Especial nº 80/2020). Banco Central do Brasil, série Estudos Especiais (divulgado originalmente como boxe do Relatório de Economia Bancária 2019), 2020
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