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Gestão de Empresas

Receber em até 30 dias reduziu a quebra de empresas em 25%, diz estudo

Pesquisa publicada no Journal of Finance acompanhou transportadoras francesas depois de uma lei de 2006 que proibiu prazos de pagamento acima de 30 dias: a inadimplência dessas empresas caiu cerca de um quarto, sem perda de lucro, e mais pequenas entraram no mercado.

Redação Adimplia
Equipe editorial do blog · 5 min de leitura
Publicado em
Caminhões estacionados lado a lado
O estudo acompanhou transportadoras francesas depois que o prazo de pagamento foi limitado a 30 dias. Foto: Marcin Jozwiak / Unsplash
Neste texto
  1. O que o estudo fez
  2. Por que o prazo quebra a pequena e não a grande
  3. O Brasil em agosto de 2026
  4. O que fazer com o prazo que você dá
  5. Fato e leitura

Uma pergunta que toda pequena empresa responde sem pensar muito: quantos dias de prazo dar ao cliente? Trinta, sessenta, noventa, "quando ele puder". Um estudo publicado no Journal of Finance, uma das principais revistas de finanças do mundo, mediu o que acontece quando a resposta é obrigada a mudar. O resultado: com prazo máximo de 30 dias, a chance de a própria empresa quebrar caiu cerca de um quarto.

O artigo é de 2016 e trata de transportadoras na França. Nós o trazemos agora porque, uma semana atrás, a Serasa contou 9,3 milhões de empresas negativadas no Brasil, e 75,6% do que elas devem é a credores fora do sistema financeiro. Ou seja, a fornecedores e prestadores de serviço que deram prazo.

O que o estudo fez

Jean-Noël Barrot, então pesquisador em finanças corporativas, usou uma mudança de lei na França como experimento natural. Em 2006, o país proibiu as empresas de transporte rodoviário de carga de combinar com os clientes prazos de pagamento superiores a 30 dias. Outros setores continuaram livres para negociar prazos mais longos.

Comparando as transportadoras com empresas parecidas de setores não afetados, antes e depois da lei (o método chamado de diferenças em diferenças), o estudo encontrou quatro resultados:

Infográfico em anel: a probabilidade de inadimplência das transportadoras caiu cerca de 25% depois do prazo máximo de 30 dias
Queda aproximada na probabilidade de inadimplência das transportadoras francesas depois da lei de 2006, segundo Barrot (2016). Arte: Adimplia

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  1. A probabilidade de inadimplência das transportadoras caiu cerca de um quarto depois da restrição, e o efeito durou.
  2. A queda se concentrou nas empresas com restrição de liquidez, isto é, as que tinham pouco caixa e pouco acesso a crédito.
  3. O lucro não caiu: receber mais cedo não custou margem, como se poderia temer se os clientes exigissem desconto em troca do prazo menor.
  4. Mais pequenas transportadoras entraram no mercado, porque a barreira de financiar os clientes grandes ficou menor.

O resumo do artigo é direto: prazos de pagamento longos dificultam a entrada e a sobrevivência de empresas com restrição de liquidez.

Por que o prazo quebra a pequena e não a grande

Quando a sua empresa entrega hoje e recebe em 60 dias, ela está emprestando ao cliente, sem juros e sem garantia, pelo valor da fatura. Esse empréstimo tem um nome nos livros de finanças, crédito comercial, e um custo real: enquanto a fatura não vence, a empresa paga salários, fornecedores e impostos com o próprio caixa ou com capital de giro do banco. Com a Selic em 13,75% ao ano, como mostramos na análise da decisão do Copom, financiar o cliente por dois meses custa mais do que a margem de muita pequena empresa.

A empresa grande suporta o prazo porque tem caixa, crédito barato e muitos clientes. A pequena, não. É por isso que, no estudo, o efeito da lei apareceu justamente nas empresas apertadas: para elas, o prazo era a diferença entre sobreviver e não sobreviver.

O Brasil em agosto de 2026

Os dados da Serasa sobre as 9,3 milhões de empresas negativadas mostram para quem o Brasil deve: 31,7% do passivo empresarial está com empresas de serviços, 19,7% com bancos e cartões, e os credores não financeiros somam 75,6%. A dívida média das micro e pequenas negativadas é de R$ 23.902,98, em sete contas. Cada uma dessas contas é uma fatura que alguém emitiu, entregou e não recebeu. Na ponta de quem deu o prazo, muitas vezes, está outra micro ou pequena empresa.

O que fazer com o prazo que você dá

O estudo não diz que o prazo deve ser zero. Diz que ele deve ser do tamanho que o seu caixa aguenta, e que encurtá-lo não derruba o negócio. Cinco práticas seguem daí:

  • Meça o ciclo de caixa. Quantos dias passam entre pagar o fornecedor e receber do cliente? Esse número, não o costume do mercado, define o prazo que você pode dar.
  • Dê prazo por cliente, não por padrão. Cliente novo, prazo curto ou pagamento à vista com Pix; cliente com histórico, prazo maior, com limite de valor em aberto. Consultar o CNPJ antes de dar prazo é prática barata.
  • Troque prazo por desconto, não por silêncio. Um desconto pequeno para pagamento à vista ou em 7 dias costuma custar menos do que 60 dias de capital de giro.
  • Cobre no vencimento. A fatura que vence e não recebe contato no dia seguinte vira a oitava conta na lista do cliente. A régua dos primeiros 30 dias vale para pessoa jurídica também.
  • Não financie o cliente grande com o caixa pequeno. Se o cliente só compra com 90 dias, o custo desse prazo precisa estar no preço, ou a venda não compensa.

Fato e leitura

Os resultados citados são do artigo "Trade Credit and Industry Dynamics: Evidence from Trucking Firms", de Jean-Noël Barrot, publicado no Journal of Finance em 2016 (vol. 71, n. 5), cujo resumo e registro nós consultamos; o texto completo é de acesso restrito. O estudo trata da França e de um setor específico; a aplicação ao Brasil e às práticas de prazo e cobrança é leitura nossa, apoiada nos dados da Serasa de agosto de 2026. Para o quadro completo, veja o guia de inadimplência para pequenas empresas.

Perguntas frequentes

O que é crédito comercial?

É a venda a prazo entre empresas: o fornecedor entrega o produto ou o serviço agora e recebe depois, financiando o cliente até o vencimento da fatura, em geral sem juros. É a forma de crédito mais comum entre pequenas empresas, e a que menos aparece nos balanços.

Dar prazo longo para o cliente pagar é ruim para a empresa?

Depende de quem financia o prazo. O estudo de Barrot mostra que, para empresas com pouco caixa, prazos longos aumentam a chance de inadimplência da própria empresa, e que encurtar o prazo para 30 dias reduziu essa chance em cerca de um quarto sem derrubar o lucro. Para empresas com caixa folgado, o efeito foi pequeno.

Fontes

  1. Barrot, Jean-Noël. Trade Credit and Industry Dynamics: Evidence from Trucking Firms. Journal of Finance, vol. 71, n. 5, p. 1975 a 2016 (registro no IDEAS/RePEc), 2016 . DOI: 10.1111/jofi.12371
  2. Barrot, Jean-Noël. Trade Credit and Industry Dynamics: Evidence from Trucking Firms (resumo do artigo). Semantic Scholar, 2016
  3. Número de empresas inadimplentes alcança 9,3 milhões, informa Serasa Experian. Jetss Brasil, com dados da Serasa Experian, 21/10/2026

Guia completo: para entender o tema do começo ao fim, leia Guia completo de inadimplência para pequenas empresas.

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