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Crédito e Juros

Restringir a cobrança reduz o acesso ao crédito, mostram estudos nos EUA

Pesquisa de economistas do CFPB publicada no Journal of Public Economics e relatório do Fed de Nova York medem o outro lado das leis de cobrança: menos contas abertas, juros maiores e piora para quem tem a pior nota de crédito.

Willian Rabello
Sócio da Adimplia · 5 min de leitura
Publicado em
Fachada de prédio público com colunas, contra o céu azul
Leis mais duras de cobrança têm um custo que os estudos conseguem medir: menos crédito. Foto: Berta Ferrer / Unsplash
Neste texto
  1. O estudo do CFPB: efeito real, mas muito pequeno
  2. O relatório do Fed de Nova York: quem perde é quem tem a nota mais baixa
  3. Por que isso importa no Brasil
  4. O que os estudos não dizem

Toda regra que limita a cobrança protege o devedor de abusos. Mas tem um custo que raramente aparece no debate: se cobrar fica mais difícil, emprestar fica mais arriscado, e quem empresta reage. Dois trabalhos feitos nos Estados Unidos, um por economistas do Consumer Financial Protection Bureau (CFPB), o órgão federal de proteção ao consumidor financeiro, e outro pelo Federal Reserve de Nova York, mediram esse custo. O resultado interessa a qualquer empresa brasileira que vende a prazo.

O estudo do CFPB: efeito real, mas muito pequeno

Pessoa preenchendo um formulário de pedido de crédito em uma mesa
Quem tem a pior nota de crédito é quem mais perde acesso quando a cobrança é restringida. Foto: Scott Graham / Unsplash

Charles Romeo e Ryan Sandler, economistas do CFPB, publicaram em março de 2021 no Journal of Public Economics (volume 195) o artigo "The effect of debt collection laws on access to credit". Segundo o resumo publicado pelos autores, eles usaram dados detalhados sobre novas contas de cartão de crédito para estudar leis recentes de quatro estados americanos que impuseram restrições à conduta dos cobradores. A conclusão: as restrições reduziram o acesso a contas de cartão e elevaram os juros cobrados, mas o efeito foi "muito pequeno", nas palavras dos próprios autores. O texto completo do artigo é de acesso pago.

O ponto de partida dos autores é claro: a cobrança é uma parte central do sistema de crédito ao consumidor, embora receba pouca atenção dos economistas. Regras de conduta protegem o consumidor, mas, se o credor repassa o custo de cobrar com mais cuidado, o repasse aparece em menos crédito ou em crédito mais caro. O estudo confirma que o repasse existe e mostra que, no caso das quatro leis estudadas, ele foi pequeno.

O relatório do Fed de Nova York: quem perde é quem tem a nota mais baixa

O segundo trabalho é anterior e mais amplo. Julia Fonseca, Katherine Strair e Basit Zafar publicaram em maio de 2017 o Staff Report 814 do Federal Reserve Bank of New York, "Access to Credit and Financial Health: Evaluating the Impact of Debt Collection". Os autores usaram o Consumer Credit Panel, uma amostra de 5% de todos os americanos com histórico de crédito, montada a partir dos registros da Equifax, e compararam os estados que endureceram as leis de cobrança com os demais. Entre 2000 e 2012, foram 29 mudanças de lei em 21 estados, 22 delas no sentido de dificultar a cobrança.

Os resultados, em valores por pessoa:

IndicadorEfeito da lei mais duraReferência
Saldo de financiamento de veículoqueda de US$ 212,79média de US$ 3.784,88
Limite de financiamento de veículoqueda de US$ 308,93
Valor das novas contas de cartãoqueda de US$ 89,73concentrada em quem tem a nota mais baixa
Saldo de cartão em atraso, nota abaixo de 500alta de US$ 104,67média de US$ 692,75
Nota de crédito, nas duas faixas mais baixasqueda de cerca de 2 pontos
Chance de ter alguma dívida em atraso, faixas mais baixasalta de 1,8 a 2,3 pontos percentuais

Fonte: Fonseca, Strair e Zafar (2017), tabelas 5 a 9 e A.8.

O detalhe que mais chama a atenção é a distribuição. A queda no crédito apareceu em todas as faixas de nota, mas a piora na saúde financeira (mais atraso, nota menor) ficou concentrada em quem já tinha a nota mais baixa. Ou seja, a regra feita para proteger o devedor mais frágil foi a que mais pesou sobre ele. O crédito imobiliário, que raramente passa por cobradores terceirizados, não mudou, o que reforça que o efeito veio mesmo da cobrança.

Por que isso importa no Brasil

Os dois estudos tratam de leis estaduais americanas, de cartão e de financiamento de veículos. O Brasil tem outro sistema, com o Código de Defesa do Consumidor valendo para todos e sem limites numéricos de contato (comparamos as regras na análise sobre a Regulation F do CFPB). Não dá para transportar os números. O que se transporta é a lógica, e ela vale para a empresa, não só para o legislador.

Uma escola que aceita matrícula com mensalidade, uma clínica que parcela o tratamento, uma loja que vende no carnê e um condomínio que cobra a taxa mensal estão, todos, concedendo crédito. A capacidade de cobrar esse crédito, de forma organizada e dentro da lei, é o que permite continuar concedendo. Quando a empresa não cobra (por falta de processo, por medo de desgastar a relação, por não saber como), ela aplica a si mesma uma "lei dura de cobrança". A reação é a mesma que os estudos mostram nos bancos americanos: exigir pagamento à vista, recusar o carnê, pedir fiador, subir o preço para todo mundo compensar o atraso de alguns. E quem perde primeiro é o cliente de menor renda, exatamente o que os dados do Fed de Nova York mostram.

O que os estudos não dizem

Nenhum dos dois trabalhos defende acabar com as regras de cobrança, e o estudo do CFPB é explícito ao chamar o efeito de muito pequeno. O relatório do Fed de Nova York é um texto para discussão, não uma publicação revisada por pares, e seus autores lembram que leis de cobrança também têm um lado de proteção que a pesquisa não mede. A leitura correta é a de equilíbrio: a cobrança abusiva precisa de limite, e a cobrança ausente também tem custo. Entre os dois extremos está a cobrança humanizada, que é o que defendemos.

Perguntas frequentes

Leis mais duras de cobrança prejudicam o consumidor?

Elas protegem contra abusos, mas têm um custo. Nos Estados Unidos, o estudo do CFPB achou um efeito muito pequeno de menos contas de cartão e juros maiores; o relatório do Fed de Nova York encontrou menos crédito e mais atraso, concentrados em quem tem a nota de crédito mais baixa.

O que isso tem a ver com uma escola ou loja no Brasil?

Quem recebe mensalidade ou vende no carnê concede crédito. Se não cobra de forma organizada, acaba reagindo como os bancos dos estudos: exige pagamento à vista, recusa o parcelamento ou sobe o preço para todos. Cobrar bem, dentro da lei, é o que mantém o crédito aberto ao cliente.

Fontes

  1. Romeo, Charles J.; Sandler, Ryan. The effect of debt collection laws on access to credit. Journal of Public Economics, vol. 195, artigo 104320 (resumo no IDEAS/RePEc), 2021 . DOI: 10.1016/j.jpubeco.2020.104320
  2. Fonseca, Julia; Strair, Katherine; Zafar, Basit. Access to Credit and Financial Health: Evaluating the Impact of Debt Collection. Federal Reserve Bank of New York Staff Report 814, 2017
  3. Ryan Sandler, Senior Economist (página de pesquisador do CFPB). Consumer Financial Protection Bureau, 2026

Guia completo: para entender o tema do começo ao fim, leia Crediário e carnê: como cobrar sem perder o cliente.

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