Restringir a cobrança reduz o acesso ao crédito, mostram estudos nos EUA
Pesquisa de economistas do CFPB publicada no Journal of Public Economics e relatório do Fed de Nova York medem o outro lado das leis de cobrança: menos contas abertas, juros maiores e piora para quem tem a pior nota de crédito.

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Toda regra que limita a cobrança protege o devedor de abusos. Mas tem um custo que raramente aparece no debate: se cobrar fica mais difícil, emprestar fica mais arriscado, e quem empresta reage. Dois trabalhos feitos nos Estados Unidos, um por economistas do Consumer Financial Protection Bureau (CFPB), o órgão federal de proteção ao consumidor financeiro, e outro pelo Federal Reserve de Nova York, mediram esse custo. O resultado interessa a qualquer empresa brasileira que vende a prazo.
O estudo do CFPB: efeito real, mas muito pequeno

Charles Romeo e Ryan Sandler, economistas do CFPB, publicaram em março de 2021 no Journal of Public Economics (volume 195) o artigo "The effect of debt collection laws on access to credit". Segundo o resumo publicado pelos autores, eles usaram dados detalhados sobre novas contas de cartão de crédito para estudar leis recentes de quatro estados americanos que impuseram restrições à conduta dos cobradores. A conclusão: as restrições reduziram o acesso a contas de cartão e elevaram os juros cobrados, mas o efeito foi "muito pequeno", nas palavras dos próprios autores. O texto completo do artigo é de acesso pago.
O ponto de partida dos autores é claro: a cobrança é uma parte central do sistema de crédito ao consumidor, embora receba pouca atenção dos economistas. Regras de conduta protegem o consumidor, mas, se o credor repassa o custo de cobrar com mais cuidado, o repasse aparece em menos crédito ou em crédito mais caro. O estudo confirma que o repasse existe e mostra que, no caso das quatro leis estudadas, ele foi pequeno.
O relatório do Fed de Nova York: quem perde é quem tem a nota mais baixa
O segundo trabalho é anterior e mais amplo. Julia Fonseca, Katherine Strair e Basit Zafar publicaram em maio de 2017 o Staff Report 814 do Federal Reserve Bank of New York, "Access to Credit and Financial Health: Evaluating the Impact of Debt Collection". Os autores usaram o Consumer Credit Panel, uma amostra de 5% de todos os americanos com histórico de crédito, montada a partir dos registros da Equifax, e compararam os estados que endureceram as leis de cobrança com os demais. Entre 2000 e 2012, foram 29 mudanças de lei em 21 estados, 22 delas no sentido de dificultar a cobrança.
Os resultados, em valores por pessoa:
| Indicador | Efeito da lei mais dura | Referência |
|---|---|---|
| Saldo de financiamento de veículo | queda de US$ 212,79 | média de US$ 3.784,88 |
| Limite de financiamento de veículo | queda de US$ 308,93 | |
| Valor das novas contas de cartão | queda de US$ 89,73 | concentrada em quem tem a nota mais baixa |
| Saldo de cartão em atraso, nota abaixo de 500 | alta de US$ 104,67 | média de US$ 692,75 |
| Nota de crédito, nas duas faixas mais baixas | queda de cerca de 2 pontos | |
| Chance de ter alguma dívida em atraso, faixas mais baixas | alta de 1,8 a 2,3 pontos percentuais |
Fonte: Fonseca, Strair e Zafar (2017), tabelas 5 a 9 e A.8.
O detalhe que mais chama a atenção é a distribuição. A queda no crédito apareceu em todas as faixas de nota, mas a piora na saúde financeira (mais atraso, nota menor) ficou concentrada em quem já tinha a nota mais baixa. Ou seja, a regra feita para proteger o devedor mais frágil foi a que mais pesou sobre ele. O crédito imobiliário, que raramente passa por cobradores terceirizados, não mudou, o que reforça que o efeito veio mesmo da cobrança.
Por que isso importa no Brasil
Os dois estudos tratam de leis estaduais americanas, de cartão e de financiamento de veículos. O Brasil tem outro sistema, com o Código de Defesa do Consumidor valendo para todos e sem limites numéricos de contato (comparamos as regras na análise sobre a Regulation F do CFPB). Não dá para transportar os números. O que se transporta é a lógica, e ela vale para a empresa, não só para o legislador.
Uma escola que aceita matrícula com mensalidade, uma clínica que parcela o tratamento, uma loja que vende no carnê e um condomínio que cobra a taxa mensal estão, todos, concedendo crédito. A capacidade de cobrar esse crédito, de forma organizada e dentro da lei, é o que permite continuar concedendo. Quando a empresa não cobra (por falta de processo, por medo de desgastar a relação, por não saber como), ela aplica a si mesma uma "lei dura de cobrança". A reação é a mesma que os estudos mostram nos bancos americanos: exigir pagamento à vista, recusar o carnê, pedir fiador, subir o preço para todo mundo compensar o atraso de alguns. E quem perde primeiro é o cliente de menor renda, exatamente o que os dados do Fed de Nova York mostram.
O que os estudos não dizem
Nenhum dos dois trabalhos defende acabar com as regras de cobrança, e o estudo do CFPB é explícito ao chamar o efeito de muito pequeno. O relatório do Fed de Nova York é um texto para discussão, não uma publicação revisada por pares, e seus autores lembram que leis de cobrança também têm um lado de proteção que a pesquisa não mede. A leitura correta é a de equilíbrio: a cobrança abusiva precisa de limite, e a cobrança ausente também tem custo. Entre os dois extremos está a cobrança humanizada, que é o que defendemos.
Perguntas frequentes
Leis mais duras de cobrança prejudicam o consumidor?
Elas protegem contra abusos, mas têm um custo. Nos Estados Unidos, o estudo do CFPB achou um efeito muito pequeno de menos contas de cartão e juros maiores; o relatório do Fed de Nova York encontrou menos crédito e mais atraso, concentrados em quem tem a nota de crédito mais baixa.
O que isso tem a ver com uma escola ou loja no Brasil?
Quem recebe mensalidade ou vende no carnê concede crédito. Se não cobra de forma organizada, acaba reagindo como os bancos dos estudos: exige pagamento à vista, recusa o parcelamento ou sobe o preço para todos. Cobrar bem, dentro da lei, é o que mantém o crédito aberto ao cliente.
Fontes
- Romeo, Charles J.; Sandler, Ryan. The effect of debt collection laws on access to credit. Journal of Public Economics, vol. 195, artigo 104320 (resumo no IDEAS/RePEc), 2021 . DOI: 10.1016/j.jpubeco.2020.104320
- Fonseca, Julia; Strair, Katherine; Zafar, Basit. Access to Credit and Financial Health: Evaluating the Impact of Debt Collection. Federal Reserve Bank of New York Staff Report 814, 2017
- Ryan Sandler, Senior Economist (página de pesquisador do CFPB). Consumer Financial Protection Bureau, 2026
Guia completo: para entender o tema do começo ao fim, leia Crediário e carnê: como cobrar sem perder o cliente.